— Todo mundo indo pro show e eu vou ter que ficar em casa, porque a namorada não vai. É fogo... — lamenta João.
— Ora, acabe esse seu namoro então!
— Não é uma boa ideia.
— Por que não?
— Porque não.
— Por que não?!
— Por que não.
— Por que o chororô então?
— Todo mundo indo pro show e eu vou ter que ficar em casa, porque a namorada não vai — repete o pobre João, com a voz lacrimejando.
— De novo isso? Então acabe logo essa porra de namoro! Daí, vamos sacar dinheiro no banco, pegar um busão pra João Pessoa e alugar um carro lá. Ainda dá tempo de encontrar com o pessoal... — sugeriu Betinho, o alcoviteiro.
— Então... É só assim?! É fácil pra você, né?
— O quê?! Acabar o namoro?
— Não. Arrumar dinheiro pra alugar o carro! Tô liso, meu filho!
— E é um descontrolado, é? Acabasse de fumar um cigarro agora na conveniência.
— É que tenho agonia de ficar muito tempo viajando!
— E daí?
— Daí que tenho que fumar.
— Pra quê?
— Porque eu quero, eu preciso.
— Certo. Vá fumar no banheiro do ônibus, ora.
— Porra, você é um gênio — disse Eduardo, dando-lhe um beijo na testa forçado. Rômulo não gostou muito do carinho. Ele era um pouco machista e sabe-tudo.
— Isso um dia ainda vai te matar! — alertou ele.
— Todos vamos morrer um dia — ironizou Eduardo, com a prepotência de todo fumante ciente de seu calvário. — Fumo porque me faz bem.
— Mas não faz. Você sabe que só um cigarro desses tem mais de quatro mil substâncias que fazem mal à saúde!
— E o que faz bem? Comer alface?!
— Não seja idiota. Você sabe que faz mal de verdade. E muito.
— Não seja idiota. Eu fumo, porque me faz bem; me sinto bem fumando.
— Pois morra... — declarou Rômulo, fingindo estar nem aí pra seu melhor amigo.
— Morrerei quando Deus quiser.
— Que nada. Você tá é acelerando o processo! A cada cigarro que você fuma, é menos 11 minutos que você tem aqui na Terra...
— ... e mais 11 minutos perto do Senhor! — brincou Eduardo, fazendo cara de evangélico pobre.
— Quer saber? Vou continuar a ler meu livro do Bukowski. Por que você não vai até o banheiro logo?!
— Você tem toda a razão. Já tava esquecido com todo esse papo furado...
E foi. Já estava tirando do bolso apertado direito da calça jeans meio grunge uma carteira de Hollywood California, que segundo ele, era o cigarro “no grau” — nem forte, nem fraco. Eduardo pegou seu isqueiro que ganhara da namorada, que inclusive não gostava do fato de ele fumar, mas tinha de aceitar. Por isso dera o tal isqueiro liso cromado pra ele.
O ônibus estava indo para um show de rock. Uma banda que tanto Rômulo quanto Eduardo gostavam muito. Aerosmith. O vocalista já não cantava como antes. “Talvez por causa de toda a coca que ele cheirou”, ria Eduardo, sonhando com o espetáculo. De fato, quando se aspira cocaína, ela passa pelas cordas vocais e as prejudica. Muito. O mesmo acontece com o tabaco. Por isso que quem fuma tem aquela voz marcante.
“Não sei como porra ele tá lendo”, pensou Eduardo, irritado com o fato do amigo não estar nervoso com o show que começaria em pouco mais de cinco horas. “Vou é fumar outro cigarro pra ver se relaxo”. E entrou no banheiro.
Acendeu. Deu o primeiro trago. Seu corpo estremeceu de prazer. Logo a nicotina tomou conta de seu peito e a seguir de seu sangue. Abriu a janelinha pro ar circular. De repente, viu a paisagem lá fora ficar distorcida. Mais e mais. Rodando e rodando, até ficar de cabeça pra baixo. Ele rodou igualmente dentro da pequena cabine.
Seu braço esquerdo estava quebrado. Saiu da cabine, chorando de dor, com o cigarro no bico, pego do chão.“Rômulo!”, pensou. Foi em busca de seu amigo e logo a adrenalina tratou de amainar a dor no braço. Roqueiros de preto, roqueiros de preto, livro do Bukowski, roqueiro de novo, Rômulo. Morto.
Por estar sem o cinto, voou sem destino e quebrou o pescoço no chão, sem chances de adeus. Eduardo, chorando, gritava seu nome. Ele não acordava. Não reclamava mais. Nunca mais ele cantaria a música do filme Armageddon, cujo refrão começa com “I don’t wanna close my eyes”, já que ele fechara seus olhos para sempre. Eduardo pôs a mão em seu bolso, tirou um cigarro numa tremedeira peculiar, acendeu e disse: “Vou fumar mais rapidamente pra te encontrar, meu velho!”.
Um rapaz abastado se aproxima de outro da classe C. Sem mais delongas, o primeiro começou: — Meu caro, como você tá? — Diga aí, Paulique! — exclamou o outro. — Jorge, bicho... eu não gosto desse apelido. Meu nome é Paulo Henrique e ponto. — Ponto continuativo! Depois que você arrancou Jennifer de mim, você perdeu toda a sua moral! — glosou ele. — Que nada, meu irmão. Nossa amizade transcende esse nosso sentimento mútuo por ela — retorquiu Paulique.
Ou melhor, Paulo Henrique... Continuando o papo cabeça: — Eu tava brincando, Paulique. Eu tava querendo me desfazer dela mesmo. Quero algo melhor; só não sei se consigo — divagou o jovem. — Me sinto bem sabendo disso tudo. Mas Jennifer não é uma qualquer: vibra em cada toque, faz poesia sem dizer um “a”, soa como gente grande... — Foi bom pra você?! — brincou Jorge. — Claro. Tê-la comprado de você foi a melhor coisa que fiz esse ano! — Pois é. Não há mais guitarras velhas como essas da Jennifer — explicou Jorge, bem jocoso. — Quando eu comprar uma Ibanez, vou te devolver essa outra sem cobrar; e com prazer! E assim, eles morreram solteiros e semi-surdos.